sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"Diga-me, irmão, o que é mais importante para você?"

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"Deus!
Condenado eu fui
A forjar o amor
No aço do rancor
E a transpor as leis Mesquinhas dos mortais..." (Fênix - Jorge Vercillo)



Fui criado, praticamente, dentro de uma igreja evangélica. "Nasci na fé", como diriam os protestantes no seu 'evangeliquês'. Depois de alguns anos, comecei a repensar essa minha dita fé, rever alguns valores e a questionar-me onde estavam fundadas as minhas convicções. O deus que me apresentaram na igreja era um deus mesquinho, não passava de um totem, um ídolo. Era um deus que trocava milagres por subidas aos montes, que castigava o filho bebê pelo suposto pecado da mãe, que obrigava uma pobre mulher a permancer casada com o marido, embora esta sofresse todo o tipo de violência; um deus que era implacável, intocável. E, para piorar a situação, era um deus que odiava a minha condição de homossexual, mesmo não sendo eu culpado por isso e não tendo optado por ser assim.

"Cada um sabe a dor
E a delícia
De ser o que é..." (Dom de iludir - Caetano)

Comecei, então, a ler, a pesquisar mais e a tentar saciar a sede por respostas que me consumia por dentro. A blogosfera me ajudou muito. É incrível a sutileza com que Deus nos fala. Ele não grita, como os evangélicos, em sua maioria, acreditam. Ele fala baixinho, ao pé do ouvido. A sua voz pode até passar desapercebida se nosso coração não estiver sensível o bastante para escutá-la. Vi que existiam pessoas que tinham os mesmos questionamenos que os meus, pessoas que se despiam de suas verdades absolutas para buscarem ouvir o sussurro da voz de Deus. Bem diferentes dos super-crentes que encontrei aos montes na igreja, detendores da santidade, que preocupavam-se em polir o exterior dos seus sepulcros caiados, que esforçavam-se em lotear o céu para si e o inferno para os que ousavam questioná-los nas suas falsas certezas estapafúrdias, as quais estavam edificadas na areia, como disse o próprio Cristo, edificadas no solo raso da hipocrisia e do preconceito.

Desculpe-me, mas não, eu não aceito que alguém me diga que eu não posso ser cristão pelo fato de eu ser gay e que, por isso, eu estou condenado ao inferno. Se a sua vida está fundamentada no medo do castigo eterno, eu sinto muito, mas você ainda não entendeu a mensagem da cruz. Desculpe-me outra vez, mas não tenho culpa se você, tal qual o 'assum preto', teve os seus olhos furados e permanece cantando seus agoros na jaula da religiosidade.

Gostaria de parafrasear uma parábola contada por Jesus:

A Parábola do hétero e do gay.
 
A alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola: “Dois homens subiram ao templo para orar; um era hétero e o outro, gay. O hétero, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os gays: pedófilos, depravados, adúlteros; nem mesmo como este viado. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’.“Mas o gay ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou imperfeito' Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus.."   

O que tornava o gay da parábola imperfeito não era a sua orientação sexual, mas a sua condição de ser-humano. Desculpe-me acabar com suas ilusões, mas o fato de eu ser gay não me diminui em nada, em relação a você, que é hétero.

Agradeço a sua preocupação com aquilo que eu faço do meu 'playground', mas acho que existem coisas mais importantes com que você deva preocupar-se. Seria bom se a igreja usasse toda a  força que tem  disponível em condenar os homossexuais ao inferno "recuperar" os homossexuais, para ser uma voz mais ativa contra as desigualdades desse mundo-cão em que vivemos.

"Se fosse dizer o que está no teu coração, por meio daquilo que sai da sua boca, tudo se resumiria a ser heterossexual [...] Enquanto ficamos parados assim, não fazemos merda nenhuma e cerca de 50.000 pessoas morreram hoje. Diga-me, irmão, o que é mais importante para você?" (Derek Webb -
What matters more)

A motivação deste post é, inicialmente, responder aos comentários do Sr. João Inocêncio, já que, se fosse responder comentando no post original, ficaria muito grande. No entanto, o objetivo não é exclusivamente esse.





segunda-feira, 15 de novembro de 2010

"Essa saudade que eu sinto de tudo o que ainda não vi..."

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Lá vai a metralhadora cheia de mágoas: 

Sou fã irrecuperável do Renato Russo e do Cazuza. Confesso que choro baldes ouvindo as músicas deles. Posso estar a pessoa mais feliz do mundo, mas basta ouvir 'Índios', 'Clarisse', 'Vento no Litoral', 'Hoje a noite não tem luar' que a fossa me pega de jeito.

Ouvir Renato Russo me causa esse sentimento que deu título ao post. Sinto uma saudade absurda de coisas que não sei se quer o que são, que nunca vi ou vivi, uma vontade de sair correndo pelo mundo e me entregar às paixões mais absurdas e sentir aquela dor de cotovelo básica e depois chorar ouvindo Cazuza tomando um porre de vinho. Vontade de viver essa 'vida louca vida breve'. Somos tão jovens, já dizia o Renato, temos todo o tempo do mundo. Mas, também sinto que não tenho tempo a perder, sinto como se a vida estivesse escorrendo pelas minhas mãos e eu aqui, gastando-a para manter as máscaras intactas.

Vivo num paradoxo terrível de não saber se devo esperar ou se estou esperando demais. Tenho medo da música 'Epitáfio' dos titãs ser minha trilha sonora daqui há alguns anos. O tempo é foda, cara, não para não.

"Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?"

domingo, 14 de novembro de 2010

Gênesis

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Dias difíceis têm sido estes. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo - medos angústias, incertezas tomam conta de mim. Sentido. Essa palavra martela na minha cabeça há dias. Sentidosentidosentidosentido, onde andarás? 

Começo hoje, 14/11/2010 esse blog, onde espero poder vomitar as coisas que me ferem por dentro, onde espero encontrar um Polipso, que, em grego, significa pausa na dor. Mas, no meio de tudo isso, ainda tento usar os lápis de cor que foram dados a cada um de nós quando nascemos. Creio eu que o mundo é uma página em preto e branco e Deus nos delegou a maravilhosa função de colorí-lo. Embora alguns teimem em jogar os lápis para o alto e viverem escravos do cotidiano sem cor, sem graça; escravos de um mundo cheio de ódio, preconceito e hipocrisia; eu teimo, apesar disso tudo, em continuar brincando com minha aquarela, em continuar acreditando que a eternidade começa aqui e que, se quisermos, podemos trazer o céu para a terra.

Deixo-lhes um vídeo cuja música foi tema da minha festa do ABC, tempo em que eu sabia colorir o mundo com mais alegria e com mais vontade. Até hoje, luto para recuperar o menino de 7 anos que um dia existiu, o menino que tentava decifrar o que significava aquelas junções de letras e que, depois de algum tempo, tenta agora decifrar essa junção de dias que chamam de vida.